terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Como o carnaval coroou a frustração da minha desobediência civil

Contra tarifa abusiva do ônibus, nota de R$50 é Bilhete Único infinito!

Leia também: A desobediência civil, de Henry David Thoreau

Segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010. Já era depois da chuva na São Paulo do século 21 e o céu estava escuro. O relógio do meu celular marcava mais de 20h30 quando dobrei a esquina que me tirou do Largo da Batata e me colocou na avenida Faria Lima. Dali, seriam mais míseros três quarteirões até o ponto de ônibus da avenida Rebouças e pronto! Faltaria menos de uma hora para chegar em casa.

Longos percursos dentro de São Paulo nunca me incomodaram tanto quanto o desconforto dos meios de transporte públicos municipais. Mas não é sobre isso que vou escrever.

Tem me estorvado, de verdade, a passagem de ônibus a R$2,70 e o metrô a R$2,55 – com perspectivas de aumento próximo para R$3. Perante este fato, me ocorreu que, contra tarifa abusiva-agressiva, nota de R$50 é um infinito bilhete único (nome do cartão usado para pagar o transporte de São Paulo).

........................................................

Por que a tarifa é abusiva? Considerando que a inflação entre a data do último reajuste (novembro de 2006) e a do novo (janeiro de 2010) foi de 15,36%, o aumento de 17,39% na passagem precisa de uma explicação muito bem dada, pois, a princípio, ele não é lógico. Mais que isso: o preço está em descompasso com a realidade da maioria dos usuários do transporte público.

Mas a prefeitura não se explica nem dialoga coma população. Prefere usar a Polícia Militar para agredir quem se manifesta contra o aumento da passagem. E não é só isso! Quem não se manifesta também pode apanhar pelo simples fato de caminhar perto de onde a manifestação (já dispersa) ocorreu.

Por que a tarifa é agressiva? Por que esfrega na cara da população o como ela não tem dinheiro para coisas básicas, como o transporte. Além disso, a passagem serviu de pretexto para o Estado descer o braço em quem o critica
.

Há algumas semanas presenciei o regosijo de policiais dentro de uma delegacia próxima à catedral da Sé, logo após eles terem detido garotos e garotas numa dessas manifestações contra o aumento da passagem. Quando cheguei ao local, os PMs colhiam depoimento dos presos sobre o ocorrido.

Detalhe: se os presos quisessem denunciar as agressões praticadas pela PM contra eles, o deveriam fazer a seus próprios agressores.

Uma menina reclamou, baixinho, que o policial postado diante dela a havia pego pelos cabelos, depois de presa, erguido seu rosto e disparado o spray de pimenta diretamente em seus olhos.

Um rapaz contou: quando manifestantes começaram a atirar pedras na polícia, ele resolvera abandonar o protesto. Mas nem teve tempo. Um policial perseguiu um atirador de pedra e, quando este escapou, resolveu prender o primeiro que aparecesse. No caso, o pobre infeliz que conversou comigo.

Após conversar com os detidos, deixei o local, acompanhado por um amigo (que havia chegado comigo à DP). Quase na calçada, fomos surpreendidos por uma viatura tentando nos atropelar na calçada. Pulamos para o lado e conseguimos não nos machucar. O motorista olhou feio e saiu cantando os pneus.

Mas essa é a parte carrancuda da historia.

........................................................

Minha solução micro-cósmica para o problema não foi invenção original. Quem deu a letra do movimento foi o mestre Luiz Prado há alguns meses, quando eu ainda me resignava à opressão do ônibus.

- Paga com a nota de cinqüenta. O cobrador nunca tem troco, te deixa ficar na frente e no seu ponto você desce...

Tá feito. Não me exponho a apanhar da polícia, não preciso me alinhar a nenhum partido trotskista, não tomo parte de manifestações inócuas e demonstro minha discordância com a palhaçada do governo.

É o meu protesto. Minha forma de resolver o meu problema.

Minha desobediência civil é, claramente, mais tímida que aquela incentivada por
Henry David Thoreau, autor de um dos mais basilares textos contemporâneos: “A desobediência civil”, publicado no controverso ano de 1848, o mesmo da publicação de “O manifesto do Partido Comunista”, de Marx e Engels, e da eclosão de revoltas em diversos países.

Mesmo sem praticar ou concordar com a integridade do texto de Thoreau, pontos em comum entre nós existem. Por exemplo:

“O que preciso fazer é cuidar para que, de modo algum, eu participe das misérias que condeno”, declarou o texto, que narra a prisão do autor após a recusa de pagar o imposto de renda ao governo dos EUA, sua terra natal.

“Trancaram as minhas reflexões (...).Como eu estava fora do seu alcance, resolveram punir o meu corpo; agi­ram como meninos incapazes de enfrentar uma pessoa de quem sentem raiva e que então dão um chute no cachorro do seu desafeto. Percebi que o Estado era um idiota, tímido como uma solteirona às voltas com a sua prataria, incapaz de distinguir os seus amigos dos inimigos; perdi todo o respeito que ainda tinha por ele e passei a considerá-lo apenas lamentável.”, continua o texto que, percebe-se, poderia ter sido escrito hoje pela manhã e publicado em qualquer jornal sem indício de desatualidade.

...........................................................................


Pensando na possibilidade de alguém roubar a nota de 50 quando ela fosse apresentada ao cobrador, estimei que, após 17 viagens patrocinadas pelo poder da oncinha, eu não teria o direito de chorar (muito) a perda do bilhete – deveria amargurar, imaginei, um misto de tristeza e cumprimento do curso natural das coisas.

Mas não foi assim: após cinco ou seis viagens garantidas, finalmente chegou a fatídica noite do 8 de fevereiro. Sai em torno das 20h30 do trabalho, no bairro de Pinheiros. Naquela tarde, recusei voltar para casa com o carro da empresa a fim de evitar congestionamentos do horário de pico. Fiquei na “firma” adiantando algumas coisas com a perspectiva de voltar de condução e exercer, mais uma vez, minha desobediência civil.


Subi no bumba. Cobrador molecão, gel no cabelo, barriga de chops. Passa uma moça, encosta o bilhete único no sensor e roda a catraca. Passa outra, outro e chego eu. Discreto, saco a carteira e tiro a cinquentona. O cobrador só faz que não com a cabeça e olha para todos os cantos do ônibus evitando me confrontar.

- Ehhhh... – desconcertado, tentei chamar sua atenção. Não deu certo.
- Ô, grande! falei com voz firme.

- Fala...

- Ó a nota aqui.
- Não tenho troco, não dá.

Aí que entra a habilidade do inconformado.

- Tá. E o que eu faço?!
- Onde você desce?
- No Anhangabaú, respondi, referindo-me ao ponto final.
- Poutz... Senta aí, espera um pouco. Se não tiver troco você desce pela frente.

Vitória.

Quase chegando ao meu destino, quase adormecido e quase desatento ao jogo que ainda não acabara, fui chamado com o mesmo super-trunfo que me servira minutos antes:

- Ô, grande!, evocou o cobrador.
- Opa...

- Tá aqui, mostrou ele, discreto, um calhamação de notas de R$2.

Passo a 50 com discrição e conto atento o troco. Disfarço a frustração. Com naturalidade e simpatia agradeço e rodo a roleta. Já estávamos na rua da Consolação em frente à Mackenzie (Universidade Presbiteriana...). Um ponto depois o busão parou.

Um bloco de carnaval saia da rua Rego Freitas e fechava a passagem por tempo indeterminado. O motorista abre a porta e declara:

- Quem quer sair, pode ir andando. O metrô Anhangabaú é logo ali.

Desolado, abatido, saio eu também. Mais um na massa, rumo ao metrô, 1 quilômetro adiante. Sem nem direito à integração ônibus-metrô, pois não havia pagado o buso com o bilhete único. Mais R$2,55 me aguardavam.

Ponho o pé no asfalto e o cobrador está dependurado na janela, vendo a banda passar.

- Falô, molek!, me saudou com uma intimidade cumplice.

10 comentários:

danilotopera disse...

Boa fábio! Já usei essa do 50 tambem por um tempo! Concordo plenamente com o ato! Essa tarifa é um abuso, principalmente devido a falta de qualidade do transporte público de Sp.

Abraço!

Fernando J. Pimenta disse...

Hahaha... pô, Fábio, seu estilo de escrita me deixa quase aos prantos!

Falô, mulek!

hahaha... muito bom, meu caro, boníssimo!!

Chess disse...

Fala Fábio, Blza achei seu blog em um acaso da vida sem querer ! agora essa da nota de 50 consegui fazer apenas uma vez e sem a consciência de que estava fazendo um protesto ! Mas eu tenho um truque nas minhas mangas, para não pagar o buzunga ! quando para a famigerada USP Lost espero sempre algum motorista conhecido da lotação, que por fim sempre com amizade acaba fazendo com que eu não pague a passagem, porém antes de arranjar estas amizades,você deverá conhecer várias pessoas do sub mundo da periferia, no meu caso da Vila Matilde ehehehe, agora que o negócio eh caro é caro ! vc não fica com a mínima vontade de pegar o metrô
Abraços !

Fabio Brandt disse...

Fala, pessoal!

Que prazer tê-lo aqui, Topera! Saudades de você!

Chess, somos quase vizinhos! Quem sabe um dia nao nos vemos numa condução? hehehe

Indico pra vcs o blogue do Fernando Pimenta que também meu deu a honra de sua atenção: http://fejapimenta.blogspot.com/

Valeu!

Mariana Marcoantonio disse...

nem fala, tenho ficado deprimida com o preço da passagem. é revoltante pensar que uma pessoa comum, que não tenha direito a pagar meia, gaste em média 10 reais por dia só pra sair de casa e voltar.
muito bom o truque da oncinha, hehe! nunca tinha pensado nisso. mas acho que do jeito que sou sortuda ia acabar sempre com um calhamaço de notas de dois... também não sei se concordo com a desobediência civil individual, ainda que com motivos mais do que válidos e justos. digo, já é algo, mas infelizmente não resolve.

Mariana Marcoantonio disse...

tinha que ser todo um movimento! só não sei como mobilizar as pessoas...

Janaína disse...

fábio, bueníssimo! parabéns pelo texto e pela desobediência civil! beijos, janaína (irmã da mari)

Vitor "SuSt" disse...

Eu usei várias vezes esse esquema da nota de 50....descobri sem querer quando só tinha uma nota de 20 e o cobrador não tinha troco. Mas as empresas já estão ficando espertas, eles deixam um tanto de dinheiro para troco. Mas se houver um movimento como disse a Mariana, onde todos dessem uma oncinha pintada para pagar o ônibus, como fica?? Aí vale...

Ivan disse...

Ei batata.. manda um salve pra mim também...

Fabio Brandt disse...

Opa!

Um grande viva ao Ivan! Valeu a todos pelos comentarios. Alguém ja usou o olhar felino da cinquentinha essa semana?