Escorreguei do alto dos vinte e um degraus que ligam a parte de cima de minha casa ao quintal. Achei que só fosse frear no térreo, mas um amigo correu e me segurou. Levantei apressado e voltei ao topo para recuperar as caixas de cerveja que repousavam na muretinha.
“Olha sua avó e sua mãe olhando”, disse baixinho o Bruno Bueno, enquanto todas as pessoas presentes na minha festa de despedida rachavam o bico, pensando que eu caia de bêbado.
Não fosse a chuva que assolou a festa durante a tarde e a noite do sábado, 19 de janeiro de 2007, os degraus da escada não ficariam tão escorregadios e eu não encontraria, na manhã do dia 20, um hematoma de 8 centímetros de diâmetro na coxa esquerda (numa região próxima ao glúteo), com cerca de três tonalidades de verde, duas de amarelo e umas incontáveis de vermelho. Talvez também fosse mais fácil escovar os dentes e lavar o rosto se não houvessem arranhões para arder na parte de cima da mão esquerda.
Tudo bem. Quinta-feira chego na França para uma estadia planejada de, mais ou menos, um ano. Serei intercambista latino-americano na Universidade Lumière Lyon 2 junto com árabes, ingleses, argentinos, mexicanos e toda sorte de pessoas. Esse foi o motivo de convocar os amigos e colegas mais próximos para um churrasco aqui em casa.
Como prometi no convite, às 10h o fogo já comia carvão, espetáculo intrigante para a platéia composta por meu avô, o grande Jorge Brandt, e eu. Meu irmão ainda dormia quando a campainha tocou pouco depois das 11h, anunciando a chegada do Fernando Aoki, o Panda, e do Marcel Lucci, Hematoma. Ambos estudaram comigo na Escola Técnica Federal de São Paulo durante o ensino médio e compõem a enorme lista de pessoas sem noção do perigo que conheço.
Há três anos não via o Fernando, que evita dar publicidade ao apelido com que fora batizado na escola – ao contrário de todo o restante da turma, cada um com codinome próprio no mundo paralelo do colegial. O reencontro foi muito oportuno: quatro dias antes de eu percorrer os quase 9,5mil quilômetros que separam São Paulo de Lyon e tornam a preguiça a menor das barreiras para um bate papo cara a cara.
O próximo a chegar foi o Lester, André Meireles, também da Federal e entusiasta de um bom churrasco entre amigos. Logo assumiu a churrasqueira e ajeitou a pia dos fundos da casa, atrás da parte coberta do quintal, para preparar caipirinhas.
Os minutos passaram e minhas idas à porta da frente se tornaram tão repetitivas quanto o movimento de abrir latinhas de cerveja executado pelo Lester. A campainha tocava e eu recebia a galera. Pessoal da Federal, da Estesp (Escola Técnica Estadual São Paulo – onde cursei o frustrante Técnico de Telecomunicações), da Escola de Comunicações e Artes, da USP em geral e de minhas andanças por aí. Excelentes colegas e amigos. Gente do dia a dia e do ano após ano.
Lei de MurphyContra todos nós, a chuva mostrou mais intensidade que no decorrer da semana e obrigou transferir a churrasqueira do quintal aberto para o coberto. Centro das atenções, ela magicamente fez toda a galera se espremer na pequena parte coberta, ponto de partida do trajeto que eu percorria até a porta da frente: saia do coberto, tomava chuva no aberto, passava pela garagem, mais chuva no jardim e abria a porta. Depois, caminho de volta rumo à muvuca.
Todo mundo junto da fumaça de carvão que impregnava a roupa e os narizes. Pra descontrair, a dupla de peraltas pimpões, Panda e Hematoma, tiraram a camisa, celular e coisas que poderiam quebrar pra fazer uma brincadeirinha: pular de barriga contra o chão do quintal. O famoso peixinho, no piso com quase um centímetro de fio d’água quando a chuva era um verdadeiro toró.
Show à parte (e barulho de cabeça na parede também), rodinhas de conversa se formaram, o som rolava cada vez mais alto e animado.
O Marcelo, famoso Mala, da minha sala de jornalismo da ECA (e doente de um mal desconhecido há dez meses) já havia encontrado a cadeira perfeita para sentar durante as quase dez horas que ficou na festa.
O Léo se segurava querendo rolar nossas queridas músicas sertanejas que embalam as voltas pra casa de metrô desde o primeiro ano de faculdade – Milionário e José Rico a César Menotti e Fabiano. Eu tava mais apto a continuar com o blues – Velhas Virgens, no caso.
Sentados no chão da garagem, alguns apoiados no carro, o Jão, o Texas, o Chiclete, o Madruga, o Homer, o Buscapé, o Ivan, o Shura e o Ceará. Pelos nomes, da Federal. O papo era futebol, pelo que lembro das vezes que passei correndo pra abrir a porta.
Nessa zorra também estavam o Chaves e a Marina, um dos casais. Ela acabou vítima de uns 300 mililitros de cerveja que “sobraram” num toque sutil de canecas entre eu e o Ivan. Como punição, recebi bem uns 1.500 mililitros na cabeça, que encharcaram minha roupa e impregnaram a garagem com o cheiro da bebida por mais de 24 horas.
No coberto, Luiz e Mônica, Tiozão e Mari, Estrago e Mari, Presidente Régis e Mari, os casais. Estavam Também a Jamila, a Amanda, o Rodrigo, o Igor e a Gisele . Mais tarde chegaria il padrino, Don Brandone, famoso e cobiçado DJ das festas Ecanas que agitou todo mundo com Roberto Carlos, Paralamas do Sucesso, Jamiroquai e, o impagável, Tim Maia Racional.
Antes da triunfal apresentação do Renato Brandão, o Charles e o Renato Sanches já inauguravam a turma do “vou embora”, saindo no meio da tarde. O Paulo e a namorada Juliana também saíram à tarde, arrastando o caçula da família, Bruno Bueno. Essa tendência fugaz dobraria meu esforço de abrir a porta: pra recepcionar e dar a apertada despedida.
Noite. Tudo escuro, luz apagada, luz acesa. Luz apagada, luz acesa. Pára, porra! Vai queimar a luz!
A Karen tinha se mandado da festa com o namorado, André, igual ao Bruno Pocotó – amigo desde a sexta série do ginásio – e a Michelle. Mas ainda chegariam aqui em casa a Camila, que conheci em 2007, o Eduardo, bicho do jornalismo e o Eduardo Damasceno, meu vizinho e velho amigo da Etesp que me ajudou a mexer no código HTML desse blogue para deixá-lo mais próximo do que eu queria.
O Pedrão da Federal, ex-Lafon, não perdeu a chance de declarar a hora da Dança Proibida, constituída de movimentos fortes e sensuais, realizada raramente, apenas quando a situação exige tal proeza. Participaram – além do Pedro e de mim, é claro – o Balza, o Luiz, o Rodolfo Preibói e o Rafael Sampaio, o Rato. De platéia, a Olga observava o namorado Rato e o incentivava a movimentos os mais estranhos possíveis. Também apreciaram a dança o Ricardo Ferraz, grandioso Lenny Kravitz do jornalismo, o Hugo e a Ju, além do, agora cineasta, Raoni.
Como lição para todos os presentes, o Pedro executou fielmente ao figurino os movimentos iniciais da dança: braços esticados a 75º do corpo. Bate-se uma palma, levando a mão esquerda até a direita, que permanece na posição inicial.
Depois, o movimento louco com a cabeça começa. Chega a vez das pernas entrarem em ação, numa cadência bamba que leva a pessoa da esquerda pra direita em círculos, nunca esquecendo de remexer a cintura.
Até então, as pessoas envolvidas com a dança estão dispersas. A interação começa mesmo quando todos atingiram o ápice da execução com domínio total da significação que cada movimento pode passar. Lester que o diga: recusando-se a dançar, continuou tomando cerveja, apoiado na muretinha do quintal coberto e observando a dificuldade da Dança Proibida.
DespedidaCerveja acabou, carne também – pela sei lá qual vez no dia. A festa durou uns vinte ou trinta minutos até a primeira leva grande de pessoas deixar a casa. No final ficaram o Ricardo Miranda – um dos protagonistas do incidente que quase me custou um rim em 2007 – o Eduardo Damasceno, a Jamila, o Leo e o Mala.
Ajudaram a dar uma ajeitadinha na casa – que só seria arrumada na manhã fria do dia 20 pela minha família – e se mandaram. O Eduardo dormiu aqui, embalado pelo fabuloso filme do Will Smith, Hitch Conselheiro Amoroso, dose....
E assim termina o breve relato da festa: pra mim ficou uma cartolina amarela, dobrada na metade, com assinaturas e recados muito loucos dos meus amigos. Durante a tarde toda meu avô rodou os grupinhos recolhendo os escritos, sem deixar de lado a lata de cerveja. Minha mãe, minha avó e minha tia também curtiram a carne e meu irmão aparecia e sumia da festa com sua camisa do Palmeiras... Nem toda família é feita só de corinthianos.
Fica inaugurado o blogue que apresentará as histórias que eu tiver pra vocês!!!
Abração!!! Flw!!!
6 comentários:
Acredito que, após o relato detalhado das conseqüências de sua triunfal queda da escada, seu amigo Marcel Lucci perderá o apelido de "Hematoma". Se cuida, querido. Beijões
Ps: Agora sim, com um nome identificável
faaala, fábio!! quer dizer que o plano de estudar fora já é real? que bacana!! boa viagem e boas aventuras para você. um beijo! júlia.
Muito bom, muito bom! Que vontade de ter comparecido à festinha...saudades desses churrascos em que todo mundo compartilha a carne, ao em vez de levar SUA linguica e comer no SEU pratinho :p
Abracao,
Kívia, incluindo Lyon no roteiro de viagem de férias
Ae Fábio!! Po cara.. acho q c tava meio bebado mesmo na hora q caiu da escada.. pq nao fui eu que te falei da sua mãe e da sua vó nao! haha
alias.. eu nem vi vc caindo.. infelizmente.. acho q na mesma hora eu estava caindo da outra escada(de proporções consideravelmente menores.. apenas 3 degraus)
valeu pelo churrascao.. apesar de ser uma despedida foi uma festa legal! ja tem um marcado pra volta hein!
abraçao!!
Bruno Bueno
seu mané! eu nao achei q vc tinha caido de bebado, eu vi q vc escorregou AO OLHAR PARA MIM, fiquei superpreocupada e fui la te socorrer! mas ja tinha muita gente ajudando, e vc tava mais preocupado com a cerveja do q com as suas costas, isso é FATO! hehehe
bjos amiguinho!
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