Ruy Castro lamentou na Folha de S.Paulo, hoje (1° de setembro de 2010, centenário do Corinthians), o fim da edição impressa do Jornal do Brasil. A publicação agora está 100% na internet.
“(...) algo da velha magia de ler jornal vai se quebrar. Teremos de levar o laptop para a mesa do café da manhã e, pior, para o banheiro?", questionou o autor.
Bem, eu já faço isso que o Ruy Castro aparenta não querer fazer. Bem melhor que o papel sujo, unidimensional e de espaço limitado do jornal impresso – que não toca música, nem rádio ao vivo.
"RUY CASTRO
Velha magiaRIO DE JANEIRO - Ex-funcionários e leitores do "Jornal do Brasil" encontraram-se ontem na Cinelândia para lamentar o fim da versão impressa do jornal, que circulou pela última vez depois de 119 anos. Por motivo de viagem, não compareci. Melhor assim. Quando o "Correio da Manhã" se despediu, em junho de 1974, eu estava também a alguns milhares de quilômetros.
O "JB" se junta agora ao "Correio" e aos outros jornais do Rio que contaram a história do Brasil em boa parte do século 20, mas que há muito desapareceram das bancas: "Diário de Notícias", "O Jornal", "Diário da Noite", "A Noite", "Diário Carioca", "A Luta Democrática", "A Notícia", "Gazeta de Notícias", "O Radical", "Última Hora" e "Tribuna da Imprensa". Quase todos fecharam nos anos 60. Daquela geração restam apenas "O Globo", "O Dia", o "Jornal dos Sports" e o "Jornal do Commercio".
O problema não é só do Rio, mas do mercado em geral. Concretamente, 90% dos jornais que circulavam em Nova York, Paris ou São Paulo até meados daquela década também deixaram de existir, e muito antes que alguém sonhasse com a internet. Mas, em vez de invocar uma suposta doença crônica, a pergunta deveria ser: por que, diante da mesma crise, outros jornais sobreviveram?
Algumas respostas seriam: seus administradores acertaram mais do que erraram, tiveram capacidade de renovação e foram criativos diante da concorrência, inclusive a das outras mídias. O "Jornal do Brasil" tem sido algoz e vítima de si mesmo há pelo menos 30 anos.
A edição de ontem minimizou o fato de ter sido a última em papel. Preferiu enfatizar que a de hoje será a sua primeira 100% digital e que, em 25 anos, todos os outros jornais o terão acompanhado. Pode ser. Mas algo da velha magia de ler jornal vai se quebrar. Teremos de levar o laptop para a mesa do café da manhã e, pior, para o banheiro? (1/setembro/2010)"
Quais são as obras básicas para se desenvolver na profissão?
Num churrasco de despedida realizado há algumas semanas por um amigo (o Pedro Paulo), que agora está estudando em Grenoble, um outro amigo (o Marcelo Icimoto) assegurou, com ponto final bem colocado, que cinco livros contêm o fundamento da profissão que se quer exercer.
As vastas bibliografias propostas pelos professores não são inúteis, diz o Marcelo, biólogo de formação. Mas há um núcleo de textos fundamentais que, conhecidos a rigor, conferem ao estudante a capacidade de conquistar a autonomia necessária para o bom desenvolvimento na área escolhida.
A pulga ficou atrás da minha orelha, justo nesse semestre em que começo meu trabalho de conclusão de curso. Ora, a ideia de encontrar a lista básica de livros do jornalismo não é por nada ruim, só me fará confrontar o passado (e achar o que eu já vi de bom) e olhar para o futuro, buscando aquilo que falta.
Lanço então a vocês: quais os livros fundamentais do jornalismo?
Não espero chegar a um número definido e nem pretendo “editar” a lista em cinco, seis, dez ou quinze obras. Só quero ver se chegamos a essa relação básica.
Pra incentivar o debate neste topico, proponho agrupar as obras em torno dos eixos “história do jornalismo”, “ética do jornalismo”, “técnica do jornalismo” e “prática do jornalismo”. Já sugiro três:
- Revolução Impressa: A Imprensa na França 1775-1800 - Robert Darton e Daniel Roche (organizadores)
- Martin Eden, Jack London
- A regra do jogo. O jornalismo e a ética do marceneiro – Cláudio Abramo
- Elementos do jornalismo – Bill Kovach e Tom Rosenstiel
Segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010. Já era depois da chuva na São Paulo do século 21 e o céu estava escuro. O relógio do meu celular marcava mais de 20h30 quando dobrei a esquina que me tirou do Largo da Batata e me colocou na avenida Faria Lima. Dali, seriam mais míseros três quarteirões até o ponto de ônibus da avenida Rebouças e pronto! Faltaria menos de uma hora para chegar em casa.
Longos percursos dentro de São Paulo nunca me incomodaram tanto quanto o desconforto dos meios de transporte públicos municipais. Mas não é sobre isso que vou escrever.
Tem me estorvado, de verdade, a passagem de ônibus a R$2,70 e o metrô a R$2,55 – com perspectivas de aumento próximo para R$3. Perante este fato, me ocorreu que, contra tarifa abusiva-agressiva, nota de R$50 é um infinito bilhete único (nome do cartão usado para pagar o transporte de São Paulo).
Por que a tarifa é abusiva? Considerando que a inflação entre a data do último reajuste (novembro de 2006) e a do novo (janeiro de 2010) foi de 15,36%, o aumento de 17,39% na passagem precisa de uma explicação muito bem dada, pois, a princípio, ele não é lógico. Mais que isso: o preço está em descompasso com a realidade da maioria dos usuários do transporte público.
Mas a prefeitura não se explica nem dialoga coma população. Prefere usar a Polícia Militar para agredir quem se manifesta contra o aumento da passagem. E não é só isso! Quem não se manifesta também pode apanhar pelo simples fato de caminhar perto de onde a manifestação (já dispersa) ocorreu.
Por que a tarifa é agressiva? Por que esfrega na cara da população o como ela não tem dinheiro para coisas básicas, como o transporte. Além disso, a passagem serviu de pretexto para o Estado descer o braço em quem o critica.
Há algumas semanas presenciei o regosijo de policiais dentro de uma delegacia próxima à catedral da Sé, logo após eles terem detido garotos e garotas numa dessas manifestações contra o aumento da passagem. Quando cheguei ao local, os PMs colhiam depoimento dos presos sobre o ocorrido.
Detalhe: se os presos quisessem denunciar as agressões praticadas pela PM contra eles, o deveriam fazer a seus próprios agressores.
Uma menina reclamou, baixinho, que o policial postado diante dela a havia pego pelos cabelos, depois de presa, erguido seu rosto e disparado o spray de pimenta diretamente em seus olhos.
Um rapaz contou: quando manifestantes começaram a atirar pedras na polícia, ele resolvera abandonar o protesto. Mas nem teve tempo. Um policial perseguiu um atirador de pedra e, quando este escapou, resolveu prender o primeiro que aparecesse. No caso, o pobre infeliz que conversou comigo.
Após conversar com os detidos, deixei o local, acompanhado por um amigo (que havia chegado comigo à DP). Quase na calçada, fomos surpreendidos por uma viatura tentando nos atropelar na calçada. Pulamos para o lado e conseguimos não nos machucar. O motorista olhou feio e saiu cantando os pneus.
Mas essa é a parte carrancuda da historia.
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Minha solução micro-cósmica para o problema não foi invenção original. Quem deu a letra do movimento foi o mestre Luiz Prado há alguns meses, quando eu ainda me resignava à opressão do ônibus.
- Paga com a nota de cinqüenta. O cobrador nunca tem troco, te deixa ficar na frente e no seu ponto você desce...
Tá feito. Não me exponho a apanhar da polícia, não preciso me alinhar a nenhum partido trotskista, não tomo parte de manifestações inócuas e demonstro minha discordância com a palhaçada do governo.
É o meu protesto. Minha forma de resolver o meu problema.
Minha desobediência civil é, claramente, mais tímida que aquela incentivada por Henry David Thoreau, autor de um dos mais basilares textos contemporâneos: “A desobediência civil”, publicado no controverso ano de 1848, o mesmo da publicação de “O manifesto do Partido Comunista”, de Marx e Engels, e da eclosão de revoltas em diversos países.
Mesmo sem praticar ou concordar com a integridade do texto de Thoreau, pontos em comum entre nós existem. Por exemplo:
“O que preciso fazer é cuidar para que, de modo algum, eu participe das misérias que condeno”, declarou o texto, que narra a prisão do autor após a recusa de pagar o imposto de renda ao governo dos EUA, sua terra natal.
“Trancaram as minhas reflexões (...).Como eu estava fora do seu alcance, resolveram punir o meu corpo; agiram como meninos incapazes de enfrentar uma pessoa de quem sentem raiva e que então dão um chute no cachorro do seu desafeto. Percebi que o Estado era um idiota, tímido como uma solteirona às voltas com a sua prataria, incapaz de distinguir os seus amigos dos inimigos; perdi todo o respeito que ainda tinha por ele e passei a considerá-lo apenas lamentável.”, continua o texto que, percebe-se, poderia ter sido escrito hoje pela manhã e publicado em qualquer jornal sem indício de desatualidade.
Pensando na possibilidade de alguém roubar a nota de 50 quando ela fosse apresentada ao cobrador, estimei que, após 17 viagens patrocinadas pelo poder da oncinha, eu não teria o direito de chorar (muito) a perda do bilhete – deveria amargurar, imaginei, um misto de tristeza e cumprimento do curso natural das coisas.
Mas não foi assim: após cinco ou seis viagens garantidas, finalmente chegou a fatídica noite do 8 de fevereiro. Sai em torno das 20h30 do trabalho, no bairro de Pinheiros. Naquela tarde, recusei voltar para casa com o carro da empresa a fim de evitar congestionamentos do horário de pico. Fiquei na “firma” adiantando algumas coisas com a perspectiva de voltar de condução e exercer, mais uma vez, minha desobediência civil.
Subi no bumba. Cobrador molecão, gel no cabelo, barriga de chops. Passa uma moça, encosta o bilhete único no sensor e roda a catraca. Passa outra, outro e chego eu. Discreto, saco a carteira e tiro a cinquentona. O cobrador só faz que não com a cabeça e olha para todos os cantos do ônibus evitando me confrontar.
- Ehhhh... – desconcertado, tentei chamar sua atenção. Não deu certo.
- Ô, grande! falei com voz firme.
- Fala...
- Ó a nota aqui.
- Não tenho troco, não dá.
Aí que entra a habilidade do inconformado.
- Tá. E o que eu faço?!
- Onde você desce?
- No Anhangabaú, respondi, referindo-me ao ponto final.
- Poutz... Senta aí, espera um pouco. Se não tiver troco você desce pela frente.
Vitória.
Quase chegando ao meu destino, quase adormecido e quase desatento ao jogo que ainda não acabara, fui chamado com o mesmo super-trunfo que me servira minutos antes:
- Ô, grande!, evocou o cobrador.
- Opa...
- Tá aqui, mostrou ele, discreto, um calhamação de notas de R$2.
Passo a 50 com discrição e conto atento o troco. Disfarço a frustração. Com naturalidade e simpatia agradeço e rodo a roleta. Já estávamos na rua da Consolação em frente à Mackenzie (Universidade Presbiteriana...). Um ponto depois o busão parou.
Um bloco de carnaval saia da rua Rego Freitas e fechava a passagem por tempo indeterminado. O motorista abre a porta e declara:
- Quem quer sair, pode ir andando. O metrô Anhangabaú é logo ali.
Desolado, abatido, saio eu também. Mais um na massa, rumo ao metrô, 1 quilômetro adiante. Sem nem direito à integração ônibus-metrô, pois não havia pagado o buso com o bilhete único. Mais R$2,55 me aguardavam.
Ponho o pé no asfalto e o cobrador está dependurado na janela, vendo a banda passar.
- Falô, molek!, me saudou com uma intimidade cumplice.
Durante anos, Boris foi o âncora com maior credibilidade do telejornalismo brasileiro, associado à pretensa “imparcialidade” da imprensa com relação aos fatos que narra. Bem a história mostra que não é bem assim: tomar posições e decisões são atitudes humanas, constantes para o sujeito social e político.
José Luis de Oliveira Lima fala por que defende José Dirceu, Cacciola, Dantas e Abdelmassih
Essa matéria eu fiz no fim de 2009 pra Babel, revista de uma das disciplinas práticas do curso de jornalismo da USP. Comentem!
Aos 43 anos, José Luis de Oliveira Lima comanda um dos 30 escritórios de advocacia que concentram os grandes casos criminais do país. Advogado do ex-ministro José Dirceu, do médico Roger Abdelmassih e dos banqueiros Daniel Dantas e Salvatore Cacciola, Oliveira Lima acredita no otimismo do povo brasileiro, não defende apenas quem não lhe é simpático e lamenta ter sua atuação questionada. O que o faz prosseguir? “Até o mais cruel dos acusados tem que ter um advogado”.
Fábio Brandt
“Já disse isso pra cliente: o trabalho pra você aqui é que você tenha uma pena e um julgamento justos, porque a condenação, diante do que se apresenta, é certa”. Ao recordar essa passagem, o advogado criminalista José Luis de Oliveira Lima tirou os olhos do mini notebook que o obrigava a se encurvar sobre a escrivaninha e os colocou em mim. Sem mudar o tom de voz suave e cauteloso dos momentos anteriores, quando trabalhava e dava entrevista ao mesmo tempo, declarou: “qualquer pessoa, até o mais cruel dos acusados tem que ter um advogado, até pra dar legalidade ao julgamento”.
Os fios de cabelo castanho-escuros, lisos e soltos, parecem ser os únicos elementos em desacordo com a placidez quase permanente da expressão de Oliveira Lima. O rosto fino e sem barba, o queixo protuberante e, principalmente, os óculos – de lentes redondas e pequeníssimas, quase da mesma circunferência dos olhos – coroam a tranqüilidade transmitida pelo advogado nas mais diversas situações: rindo, dando entrevistas coletivas e mesmo fazendo argüições no Supremo Tribunal Federal.
Em 9 de outubro, conversei com José Luis por 36 minutos, na mesma sala em que se acomodaram, para tratar de suas defesas, José Dirceu (suposto líder do mensalão, esquema milionário de compra de apoio parlamentar para o governo Lula), Daniel Dantas (acusado de financiar o mensalão, desviar verbas públicas, subornar delegado da Polícia Federal e muito mais) e Roger Abdelmassih (cujas ex-pacientes acusam de tê-las violado, acariciado e beijado à força). Sem grandes problemas, marquei o encontro por telefone, em meados de setembro, diretamente com Oliveira Lima. Foi mais ou menos assim:
- Qual é seu prazo?,perguntou.
- Final de outubro.
Ele apenas pediu uma semana para sair de um momento muito complicado – provavelmente relacionado à prisão preventiva do doutor Roger – e então combinarmos o encontro.
No dia marcado, cheguei cinco minutos atrasado ao trigésimo segundo andar do edifício 50 da avenida São Luis, no cruzamento com a Ipiranga. A fachada ostenta esplendorosa escultura negra de um cavalo rampante, erguido nas patas traseiras com a cabeça inclinada para o lado, mas não indica claramente o número da construção. Precisei confirmar com o jornaleiro:
- O cinqüenta? É o Itália mesmo, rebateu o interlocutor, referindo-se a um dos prédios mais tradicionais e altos (46 andares) do centro velho de São Paulo, construído na década de 60 por iniciativa de imigrantes da península itálica, integrantes do ainda existente clube Circolo Italiano, fundado em 1911.
Driblei poças d’água e vendedores ambulantes de guarda-chuvas naquela manhã chuvosa para, de repente, encontrar-me na sala de reuniões do escritório Oliveira Lima, Hungria, Dall’Acqua e Furrier, fundado em 31 de maio de 1960 pelo pai de José Luis, o também criminalista Aerobaldo Espínola de Oliveira Lima Filho. Ali fiquei por cerca de uma hora até ser finalmente chamado à sala do entrevistado.
Minha estadia solitária no vasto ambiente de reuniões, no entanto, nada teve de tediosa. Circulei pelo local imaginando os movimentos ali realizados por grandes figurões vistos como vilões pela sociedade. Pé ante pé, caminhei pausadamente, pisando o carpete muito semelhante a um mármore escuro. Contornei a grande mesa oval de madeira clara e espessa, rodeada por dez cadeiras pretas cujo estofado macio de formato anatômico já recebeu o peso de muitos empresários e políticos em busca de soluções para seus imbróglios jurídicos.
O que desviou minha atenção dos espectros foi a ampla janela, verdadeiro portal para um privilegiado panorama da região sudoeste de São Paulo. Um horizonte formado, majoritariamente, por prédios – incluindo o tête à tête refinado entre os gigantes Copan e Hilton. Ao fundo, o verde sedutor das serras limítrofes do município.
A nove andares do badalado restaurante Terraço Itália e a catorze da cobertura do prédio (segundo mais alto da cidade, só perde para o Mirante do Vale), a sala retangular de reuniões do escritório de Oliveira Lima repousa entre suas paredes brancas. Ela também possui uma televisão de tela fina conectada a um aparelho de DVD, uma parede falsa de plástico opaco, lustres em forma de disco voador cortado ao meio e um grande vaso, encostado num canto da parede oposta à TV, do qual sai uma enorme folha verde.
Dois quadros, pendurados lado a lado na parede oposta à janela, retratam o mesmo homem de máscara preta e cartola vermelha. Num deles, o sujeito está ereto, com as palmas das mãos estendidas e equilibradas à altura do abdome, sendo sobrevoadas cada uma por um pássaro. No outro, ele tem o tronco inclinado para o lado, as alturas das mãos desequilibradas – mas as palmas ainda estendidas – e os pássaros voam aleatoriamente sobre sua cabeça.
Já havia abandonado a decisão de aguardar em pé quando uma moça alta, em tailleur azul marinho ou preto, impecável, entrou no cômodo e pediu para acompanhá-la até a sala do entrevistado. Passamos pelo saguão de entrada, onde permanecia risonha a mesma jovem recepcionista que me recebera uma hora antes. Entramos em um salão onde, em mesas diferentes, trabalhavam duas moças que aparentavam ser secretárias de José Luis e, finalmente, chegamos a ele.
Oliveira Lima me recebeu calma e informalmente. Usava paletó claro, levemente quadriculado por marcas riscadas. Por trás de sua mesa, tomada por pilhas de papéis e livros misturadas a porta-retratos com fotos de seus quatro filhos, ele logo disparou:
-Não vem com essa de me chamar de senhor, né? Por favor...
Desculpando-se pelo atraso e por falar comigo enquanto trabalhava, adiantou que não tinha se livrado do turbilhão de complicações e que aquele era mais um dia cheio. Concentrei-me em obter as respostas necessárias para a matéria e, por isso, os detalhes físicos da sala me escaparam.
Mencionei o tema da entrevista, inferno, e que ele costuma aparecer nos jornais como advogado de pessoas demonizadas pela sociedade – como um dos mais recentes Judas malhados em público, o médico Roger Abdelmassih.
Especializado em reprodução assistida, o doutor Roger tem reconhecimento internacional e, no Brasil, é o mais conceituado do ramo. Ou “era”. Até ser preso, em 17 de agosto de 2009, sob acusação de estuprar mais de 50 pacientes enquanto sedadas, Roger gozava as graças da alta sociedade: aparecia no programa Amaury Jr, foi levado por José Serra num encontro com o Papa e recebeu agradecimentos de Pelé, Fernando Collor e outras celebridades pelo tratamento de fertilidade ministrado às respectivas companheiras.
- Eu fui interpelado na rua várias vezes: ‘Doutor o senhor é um advogado já tão conhecido, tão respeitado, por que vai defender esse senhor?’, contou Oliveira Lima sobre o caso Abdelmassih. Teve uma pessoa que foi muito agressiva, então meu filho virou e falou: ‘pai você não vai se defender?’. Você fica exausto. É um problema... A sociedade não entende o que é presunção de inocência. Eu digo o seguinte: todo juiz, todo promotor de justiça e todo jornalista deveria figurar como réu pra entender o que é o princípio de presunção de inocência.
Sempre com voz tranquila, acrescentou:
- Um homem que tem vinte mil clientes. Oito mil vidas que esse homem deu. Quer dizer, será que ele é tão ruim assim que não merece... – e não encerrou a sentença.
Para explicar a situação, o criminalista hipotizou: uma pessoa que chegasse ao Brasil entre setembro e outubro pensaria que Abdelmassih já fora condenado à prisão perpétua, mesmo com o processo “ainda no início”, sem sentença proferida. Lima lembrou que o médico fora estampado na capa da revista Veja e citado nas capas da Época e da Isto É ainda em setembro, bem antes das sessões de depoimentos das testemunhas de acusação – ocorridas na semana do 13 de outubro, com a apresentação de 56 testemunhas de acusação e 180 de defesa e encerrada com a perspectiva de o Supremo Tribunal de Justiça julgar um habeas corpus para o réu.
- Os Tribunais Superiores vêm aplicando com muita propriedade o principio da presunção de inocência. O problema é a imprensa. Os homens de redação não se conformam com uma decisão que não atenda o desejo deles, acho isso inaceitável. Daí eles colocam de uma maneira brutal, esculhambam com o juiz, esculhambam com a juíza. Dizem que o juiz é fraco, não estudou...
Questionado sobre como o médico poderia restabelecer a vida, caso inocentado, Lima encerrou o ponto:
- O Roger, infelizmente, está com uma vida destruída. Esquece, a vida dele está destruída. Estamos tentando ver se ele consegue se reerguer, entendeu? É uma pena, eu acho uma pena – disse, fazendo uma pausa antes de concluir. Mas não posso falar sobre o caso, porque está em sigilo. Só posso falar sobre essas questões de imprensa.
José Luis de Oliveira Lima se formou em direito em 1989, aos 23 anos, pela FMU (Faculdades Metropolitanas Unidas) e desde então trabalha no escritório fundado pelo pai. Nunca fez mestrado ou doutorado e afirma que isso decorre de sua opção pela advocacia, profissão que visou “desde menino”.
- Sou advogado, tenho um prazer enorme em advogar, é a melhor profissão que existe. Fui coordenador de uma faculdade uma vez. Lembro que cheguei pro diretor e falei: não dá. Também gosto de política, sempre fiz política.
Antes de se tornar, aos 31 anos, o mais jovem presidente da Caasp (Caixa de Assistência dos Advogados de São Paulo, órgão responsável pela assistência social aos inscritos na OAB paulista), Lima trabalhou, na época da faculdade, com o ex-governador do Estado, Franco Montoro. Outra ponte com o poder é o tio José Carlos Dias, ministro da Justiça durante o governo FHC, a quem José Luis chama “segundo pai” e agradece as indicações dos primeiros grandes clientes.
- Meus clientes hoje são fundamentalmente empresários e políticos, por causa de crimes contra o sistema financeiro. Não só acusados, mas também vítimas – disse o advogado. Hoje eu tenho uma ligação muito forte com o PT, mas também com os tucanos. Transito muito bem entre os dois, apesar de advogar também pro DEM e outros partidos, esclareceu, ressaltando ter o perfil de eleitor do PSDB e que, apesar de considerar “bons” os governos de Lula, o de Serra vai ser melhor.
Lima nunca foi estagiário. Durante os cinco anos de faculdade, foi funcionário concursado: primeiro, escrevente em cartório de fórum criminal e, depois, assistente jurídico na vara criminal. Achava que assim aprendia mais sobre a profissão. Formado, foi direto trabalhar com o pai, na área criminal.
Outra coisa que ele nunca fez foi estudar religião, nem sob perspectiva histórica. Ateu desde que lembra saber da existência dos credos, apesar da família católica, José Luis diz que sua crença é “na vida e nas pessoas”. Mas a história das religiões explica muito sobre a origem de alcunhas comumente atribuídas aos advogados criminalistas envolvidos em casos notórios e controversos.
As pessoas começaram a associar seus inimigos e rivais com a imagem maligna de Satanás em torno do ano 60 d.C., expõe a historiadora da Universidade de Princeton Elaine Pagels em seu livro “As origens de Satanás”. Nessa época, explica ela, houve uma revolta dos judeus palestinos contra seus dominadores romanos. Detalhe: o termo referente a Satanás não era aplicado pelos judeus aos romanos, mas sim a outros judeus. Os favoráveis à revolta satanizavam os contrários a ela e vice-versa.
Pagels ressalta que, na tradição judia original Satanás não possuía a mesma imagem bestial disseminada pelo cristianismo. Apesar de cometer alguns desvios de conduta, ele era um dos anjos da corte divina, com aparência humana e capacidades superiores. Ou seja: ele era a ovelha negra, mas permanecia à família. Assim, o povo judeu associava seus rivais-semelhantes a Satanás e não a monstros, como faziam com os estrangeiros.
Conforme as disputas entre os grupos judeus se acirraram e o cristianismo se fortaleceu, Satanás passou a ser representado nas crônicas de época com uma imagem cada vez mais monstruosa. As teorias dos “anjos caídos”, expulsos do paraíso por diversos motivos, ganharam força e, na vida mundana, começam a orientar fortemente a relação entre adversários. Hábito que, aliás, atravessou séculos, chegando, em 2006, à Assembleia da ONU (quando Bush foi chamado de diabo por Hugo Chávez) e às presidenciais brasileiras (quando Lula foi taxado de demônio por FHC e de Judas por Geraldo Alckmin).
Antes de aparecer na política pós-moderna, destaca Pagels, o hábito de demonizar tornou-se mais intenso nos evangelhos do Novo Testamento (escritos por seguidores de Cristo, em sua maioria, entre 70d.C. e 90d.C., após a revolta contra Roma). Segundo a historiadora, esses textos narram batalhas de Jesus Cristo contra Satanás, já retratado como entidade maligna infiltrada entre os que, por exemplo, não aceitavam o novo messias – caso dos judeus.
O evangelho de Marcos, por exemplo, apresenta muitas queixas contra as lideranças judias, responsabilizadas pela marginalização dos cristãos, e fala do julgamento divino, algoz dos judeus que aceitaram fazer a guerra contra Roma (os cristãos, claro, eram contra a realização da revolta).
Após diversas guinadas de mesa, apedrejamentos e fogueiras – nas quais vítimas e carrascos, demônios e salvadores, trocaram de lugar de acordo com a alternância de poder – a mente humana foi capaz de aperfeiçoar o Direito, construir tribunais e estabelecer profissões, como a de tapibaquígrafo, promotor, juiz e, voilà, advogado.
- Tem uma passagem do Waldir Trancoso Peres, um dos maiores advogados criminalistas do país, recordou o advogado Oliveira Lima enquanto digitava em seu computador e falava comigo. Ele tava dando uma entrevista e o jornalista perguntou: ‘doutor Waldir, o senhor defenderia Hitler?’. Aí ele respondeu: ‘Você é um jornalista tão respeitado. Você gostaria que Hitler fosse condenado sem advogado? Teria credibilidade uma condenação de Hitler sem um advogado?’. Daí o jornalista virou e disse: ‘o senhor tem razão’.
Após breve pausa, Lima ergueu a cabeça e acrescentou:
- Não tem um traço de paralelo entre Hitler e meus clientes, não estou comparando. Mas estou dizendo o seguinte: qualquer pessoa, até o mais cruel dos acusados tem que ter um advogado. Até pra dar legalidade ao julgamento, até pra ele ter uma pena justa. Muitas vezes, o papel do advogado num caso muito difícil é exatamente defender que seu cliente tenha uma pena justa.
Mesmo não dormindo mais que quatro ou cinco horas por noite, José Luis teve, em 2009, que abrir mão de algumas atribuições. A começar pelas eleições da seção paulista da Ordem dos Advogados do Brasil. Convidado para ser vice-presidente de uma das chapas concorrentes, deixou o compromisso de lado por esperar que, no próximo ano, surja um grupo com “visão diferente dos dois que estão aí”, mas também por falta de tempo.
Quase semanalmente, Lima vai para Brasília e, quinzenalmente, para o Rio. Fora isso, diz viajar bastante para o exterior a trabalho (quando telefonei em seu celular, em 29 de outubro, para pedir o número de Carlos Dias, participava de uma audiência em Lisboa).
- Aprendi a gostar muito de Brasília. Brasília me ajudou muito. Tem o Supremo Tribunal Federal, tem CPI. Atuo muito em CPI, relatou o advogado, confessando não ter um local de lazer preferido na capital federal. Brasília não tem distração, é business e trabalho. Se estou almoçando, estou almoçando a trabalho. Se estou jantando, estou jantando a trabalho. Minha distração são meus filhos e minhas viagens. Religiosamente, eu tiro férias.
Sempre atento às palavras, o ateu explicou que a religiosidade das férias fazem estrita referência à necessidade de dedicar seu tempo aos filhos, três do primeiro e uma do segundo e atual casamento.
- O mais velho tem 13 [anos] que é o Bruno. Depois, tem o João que tem 11 e meio. O Dalmo que tem 10 e a Luiza que tem 4.
- Você não acumula férias então?, retruquei.
- Não, não, não. Tiro de 15 a 20 dias em janeiro, 15 dias em julho e viajo quando tem feriado. Disso não abro mão. Mesmo quando tem trabalho, não abro mão da relação com meus filhos, não há cliente que vá fazer isso.
-Ele é louco pelos filhos, pelos ‘juquinhas’, me disse algumas semanas depois o tio de José Luis, o também criminalista e ex-ministro, José Carlos Dias – cujo escritório também fica no edifício Itália, seis andares abaixo do Oliveira Lima.
“Juquinhas” foi uma clara referência ao apelido com que José Luis gosta de ser chamado. “Foi meu pai que me colocou o apelido de Juca e o Luis não leva acento”, respondeu o advogado às questões que fiz sobre seus apelativos.
Antes de desfrutar do mundo da advocacia, Oliveira Lima foi um garoto levado – encapetado talvez. Ele se recorda um “péssimo aluno”, tão indisciplinado que foi expulso do colégio Rio Branco e do Objetivo durante o ensino médio.
- Também fui um aluno bem medíocre na faculdade, exceto em direito penal, que eu gostava. Acho uma pena, me arrependo de não ter estudado mais. Tive que estudar depois! Aí estudei muito, adquiri um prazer enorme pela leitura, leio muito. Mas, infelizmente, não fui um bom aluno.
Apesar de arrependido, José Luis admite, sorrindo, ter passado infância e adolescência “muito divertidas”. Após momentos de hesitação, aceitou relatar, rapidamente, dois de seus feitos (não sem fazer um mea culpa sobre problemas vividos por sua mãe):
- Quando ela ia nas reuniões de pais e mestres, do Rio branco, por exemplo, saia com a orelha vermelha. Uma vez eu desci com o extintor de incêndio na rampa do Rio Branco. Outra vez, tinha uma festa do centro acadêmico, comprei 10 galinhas e joguei lá no meio, isso entre 12 e 14 anos...
Nessas situações de culpa incontestável, não tinha o que fazer. Foi suspenso uma, duas, três vezes. Perdeu a bolsa de estudos gradualmente e foi expulso do colégio. Cena difícil de imaginar, não só para quem vê o doutor Oliveira Lima de toga, nas sessões do STF, mas também em situações mais cotidianas.
- Hoje sou absolutamente tranquilo. Calmo! Calmo, sou um cara calmo. Faço minha acupuntura toda semana, corro muito, faço muito esporte, contou, emendando que cultiva esse gosto desde pequeno. Joguei basquete dos 11 aos 17 anos. Jogava bem. No [Clube Atlético] Paulistano, no Palmeiras, em seleções. Mas, enfim, eu era um cara que queria ser advogado, sempre. Meu prazer hoje é exercer minha profissão e ficar com meus quatro filhos. E poder assistir aos jogos do Palmeiras. Esse é o meu lazer maior! Adoro!, exultou, animando-se com time que também defendeu jogando futebol de campo, antes dos dez anos de idade.
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- Quando você reconhece a hora de admitir a culpa de seu cliente no tribunal?, perguntei a Oliveira Lima.
Misturando incompreensão e indignação pela pergunta, ele soltou:
- Eu não julgo meu cliente. Por isso eu sou advogado. Aliás, eu seria um péssimo juiz. Quando meus filhos brigam, tenho uma dificuldade enorme em julgar quem está certo e quem está errado. Essa coisa de julgar não é do meu perfil. Eu seria péssimo juiz. Além disso, o cliente, em regra, diz a verdade pro advogado, ele não mente.
- Que tipo de cliente você não aceita defender?
- Só não posso defender alguém se eu estiver em conflito, se eu já defender outra pessoa que possa ser inimigo dele. O que eu preciso é olhar no rosto do meu cliente. Se eu for com a cara dele, eu defendo. É isso que eu preciso.
- E como dizer um ‘não’ nesses casos?
- Eu viro e digo: ‘olha não vou te defender’. Falo abertamente, ‘não simpatizei com o senhor’. Na advocacia criminal tem que ter empatia com o cliente. Se não tiver, acabou. Tem que gostar do seu cliente e pronto. Tem que ter um feeling gostoso com ele, do contrário eu não atuo bem. Se faço uma reunião e a reunião não fluiu bem, eu vou embora, saio de cara.
A mesma regra parece seguir o tio do entrevistado, José Carlos Dias, que me contou ter indicado o sobrinho para o ex-ministro José Dirceu porque já era advogado dos diretores do Banco Rural – acusados de prover recursos para o mensalão e que apresentam depoimentos conflitantes com os de Dirceu.
- Ele tem os requisitos que considero fundamentais num advogado: a dedicação ao cliente, a ética, a seriedade. Não tenho dúvida de que quando indico um cliente pra ele, estou indicando um bom advogado, comentou Dias.
Para preservar o sigilo da relação com os clientes, Oliveira Lima só comenta fatos já bastante divulgados. Deixa bem claro que sua condição de advogado o impede de expor palavras trocadas com seus representados em reuniões que ocorrem, segundo ele, “99% das vezes” na mesma sala em que me recebeu.
Por isso não fala muito sobre Daniel Dantas – que já deixou de representar – e de Salvatore Cacciola. Este último, diga-se de passagem, talvez tenha sido seu primeiro cliente de destaque midiático. Nascido em Milão, em 1944, Cacciola migrou para o Brasil com a família na década de 50 por causa da depressão econômica gerada pela segunda Guerra Mundial. Fez a vida e, nos idos da virada do século 20 para o 21, era proprietário do Banco Marka, que apostava alto na estabilidade do real. Quando o governo brasileiro mudou o regime de câmbio de fixo para flutuante, em 1999 – para fazer frente à crise emanada da Rússia – Cacciola solicitou ao Banco Central a venda de dólares abaixo do preço de mercado para não falir.
A operação se tornou pública e uma Comissão Parlamentar de Inquérito concluiu: ela gerou prejuízo de R$1,5 bilhão aos cofres públicos. O Ministério Público Federal pediu prisão preventiva do banqueiro, que se via envolvido num emaranhado de acusações (de gestão fraudulenta e tráfico de influência, por exemplo) contra ele e conhecidos, incluindo membros da alta cúpula do BC – como o ex-presidente da instituição, Francisco Lopes. Encarcerado, Cacciola recebeu habeas corpos do STF e fugiu para a Itália, que não acolheu pedido de extradição. Condenado à revelia (sem estar presente no julgamento), só foi capturado novamente quando passou por Mônaco. Em setembro de 2009, completou dois anos de estadia no presídio Bangu 8. Mas Oliveira Lima não comenta o caso.
Sobre Dirceu, cuja situação é constantemente lembrada pelos jornais, ele fala:
- Não tenho a menor dúvida da inocência do José Dirceu e não tenho a menor dúvida de que o processo dele foi um julgamento político. Eu tenho muita tranqüilidade quanto ao caso do José Dirceu, muita tranquilidade, muita tranquilidade. Conheço esse processo de trás pra frente. Não tem nada contra ele. A cassação do mandato representou uma vitória da oposição e foi um julgamento político. Num julgamento técnico, no Supremo Tribunal Federal, eu tenho muita tranqüilidade de que ele será absolvido.
Se Oliveira Lima for malignamente surpreendido pelo destino e Dirceu considerado culpado, no entanto, o ex-deputado pode não só sofrer a punição determinada pelas autoridades como ser colocado pelos cronistas de nossa época, para servir de exemplo, no vasto hall de personagens agregados pelo tempo à Divina Comédia, escrita no início do século 14 por Dante Alighieri.
Nesse caso, Dirceu seria retratado certamente nos lugares mais profundos do Inferno, onde Dante localizou diversos tipos de fraudadores: sedutores, aduladores, praticantes de nepotismo, traficantes, adivinhos, hipócritas, ladrões, maus conselheiros, traidores de parentes, traidores da pátria, dos hóspedes e dos bem-feitores.
Alighieri descreveu a terra do Capeta como uma cavidade cônica, composta por nove círculos que se afunilam até chegar ao posto ocupado por Lúcifer. Nos seis primeiros círculos, cumprem pena os que levaram uma vida marcada pela incontinência (gulosos, luxuriosos, avaros e héreges, por exemplo); no sétimo círculo, ficam os violentos e bestiais; no oitavo e no nono, os fraudadores – sendo os locais mais profundos reservados à penitência dos que cometeram as fraudes mais graves.
Caso os contadores de causo tenham a chance de assentar Dirceu no oitavo círculo, provavelmente o colocarão entre os hipócritas, por ter negado sua culpa em público durante muito tempo. A pena imposta a esses danados, na obra de Dante, é caminhar, eterna e lentamente, vestindo pesadas capas de chumbo com uma bela aparência dourada.
Mas não faltará gente para jogar o petista no nono círculo, o mais profundo e próximo de Satanás. Se considerado culpado de chefiar o mensalão, ele será, possivelmente, colocado entre os traidores da pátria, por ter se envolvido com a corrupção de representantes do povo. O castigo desse grupo é permanecer mergulhado num mar de gelo, apenas com a cabeça para fora.
Essa possibilidade, no entanto, não deve integrar as previsões mais pessimistas de José Luis de Oliveira Lima. Para ele, a influência de forças negativas passa muito longe do ar respirado pelos brasileiros. Morador dos Jardins, bairro nobre de São Paulo, ele confia no otimismo tupiniquim, povo que responde às mazelas da desigualdade social com simpatia e espírito de progresso. Além disso, sente-se muito bem e confiante fazendo o que faz onde faz. Não trocaria a pauliceia por qualquer outra cidade.
No fim da conversa, o entrevistado esclareceu como funciona o escritório que comanda há 20 anos. “Hungria, Dall’Acqua e Furrier” são sobrenomes dos sócios que se juntaram ao Oliveira Lima ao longo dos anos. A sócia mais recente é Jaqueline Furrier, chamada por José Luis de “minha parceira nos casos de crime contra o sistema financeiro”.
- Ela é, talvez, a melhor advogada nessa área, comentou, lembrando que Jaqueline é também sua melhor amiga e o apresentou à esposa.
Rodrigo Dall’Acqua é o sócio que trabalha com Lima nas CPIs. Camilla Soares Hungria, a sócia mais antiga, cuida do escritório inteiro, define José Luis. Por fim, Giovanna Cardoso Gazola é a associada especialista em contenciosos de massa (que envolvem clientes de partidos políticos).
- O Processo de adesão é simples: eu convido pra ser sócio. Acho que é um merecimento de um advogado q trabalhou por muito tempo. Então convido pra ser sócio. Temos uma relação muito boa.
A situação de seu escritório no mercado, ele descreve sem rodeio nenhum, com uma assertiva tão objetiva quanto a pincelada final da última mão de tinta em um quadro:
- Fundamentalmente quem atua na área criminal são 30 escritórios especializados que tem em São Paulo, dois ou três em Brasília, três ou quatro no Rio de Janeiro. Se não está comigo, está com outro, ou com outro. Tanto, que todos são muito amigos, freqüentam a casa um do outro.
Faz sentido: uma simples fração da cena criminalista paulista nos dá a dimensão de quão circular é este ramo. Se puxarmos a lista por Ricardo Tosto, famoso por ter assumido a defesa do ex-prefeito de São Paulo e atual deputado federal Paulo Maluf, veremos que ele divide esse feito com Roberto Batochio, que também está no caso mensalão, representando o ex-ministro da fazenda Antônio Palocci. Por acaso, Batochio garantiu a liberdade dos estudantes de medicina da USP acusados de matar um calouro twaianês afogado na piscina da faculdade durante um trote. Nessa empreitada, ele trabalhou junto com Márcio Thomaz Bastos, ex-ministro da justiça – igual ao tio de Oliveira Lima – que tam,bem está no caso Abdelmassih, junto a José Luis.
Anunciando que ainda deveria ir ao Rio de Janeiro, Oliveira Lima se despediu e me acompanhou até a porta do escritório. Passamos pelas secretárias e pela recepcionista antes de nos despedirmos novamente.
- Bixo, qualquer coisa me liga!, recomendou, virando-se rapidamente na direção de sua sala.